Pequena e Média Empresa
Aquela velha máxima do cada um por si e salve-se quem puder corre o risco de ser superada pelos APLs. Trabalhar a cooperação entre as empresas transforma concorrentes em aliados
Brasília, 27/07/09
Aquela velha máxima do cada um por si e salve-se quem puder corre o risco de ser superada pelos Arranjos Produtivos Locais (APLs). Trabalhar a cooperação entre as empresas transforma concorrentes em aliados. O resultado traz vantagens individuais e fortalecimento coletivo. "Quando cooperam, as empresas superam problemas comuns e ganham mais competitividade", diz Juarez de Paula, gerente de agronegócios do Sebrae.
Os ganhos são múltiplos: compras conjuntas, melhor negociação com fornecedores, construção e expansão da área de atuação, acordos com o poder público, conquista de políticas públicas, tratamento diferenciado nos financiamentos. Pena que a tradição de cooperar ainda não tenha convencido a grande maioria dos pequenos, micros e médios. "Quando a sugestão da cooperação vem de dentro do segmento, a reação é quase sempre de desconfiança", lamenta Juarez de Paula.
Desde 2003, quando o governo passou a priorizar os APLs, as pequenas empresas foram se agrupando e os resultados vêm surpreendendo. "Há um real fortalecimento das empresas que participam dos arranjos produtivos", diz Miriam Zitz, gerente atendimento coletivo do Sebrae nacional. "Houve também um incremento na formação de técnicos especialistas, além do aumento no volume de negócios e linhas de crédito especiais, já que empresas que participam dos arranjos produtivos oferecem menos risco". Até o MEC passou a definir e direcionar as escolas técnicas a partir da vocação produtiva das localidades onde as APLs estão a todo vapor.
Razões não faltam para esses arranjos produtivos serem adotados por empresas do mesmo segmento e região. Pequenas e médias formam o grande universo empresarial no Brasil. Segundo dados do Sebrae, representam 99% dos negócios: são as formais (4,5 milhões) e as informais (10,3 milhões) que geram mais de 28 milhões de empregos com carteira assinada. "Apoiar a formação de APLs equivale a reconhecer que qualquer política de estímulo a pequenas e médias empresas pode ser bem mais eficaz direcionada a um grupo do que individualmente", diz Juarez de Paula.
Como essas configurações são espontâneas, não há receita - principalmente porque as empresas pertencem aos mais diferentes segmentos (indústria, artesanato, turismo, agronegócio). O resultado final da cooperação empresarial, contudo, tem vantagens comuns: visibilidade, empoderamento, aprendizado coletivo, inovação, direcionamento de programas de apoio à atividade. "Essa melhoria do processo produtivo agrega valor às empresas e facilita a captação de apoios", diz ainda Miriam Zitz.
Quando superam a desconfiança, os empresários agrupados em torno de objetivos comuns passam a frequentar o melhor dos mundos. "Entram para um universo menos perverso de competitividade, quebram o isolamento, têm maior poder de barganha, ficam mais fortalecidos", explica Miriam. Para superar o empecilho, o Sebrae vem desenvolvendo ações que não interferem com o processo produtivo de cada empresa.
Esse conceito, que nos Estados Unidos é conhecido como cluster, foi apresentado durante a última conferência do Instituto Ethos como uma das formas mais eficazes de fortalecimento das pequenas e médias empresas. "Operando na mesma região, compartilhando problemas e soluções, empresas agrupadas correm menor risco no caso de investimento, têm maior facilidade no cumprimento de metas de longo prazo e ganham força para desenvolver uma economia sustentável", disse Leontien Plugge, gerente de relacionamentos em rede do Global Reporting Initiative (GRI).
A mobilização em torno dos arranjos produtivos locais pode ser uma boa solução para quase 7 milhões de micro e pequenas empresas que representam hoje 20% do PIB brasileiro. O Sebrae não dispõe de um cálculo exato sobre o volume de negócios que estão organizados dessa maneira, mas Miriam Zitz estima que perto de 10% podem estar no universo dos APLs.
Fonte: Valor Econômico