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Entrevista: Marsis Cabral Junior

A RedeAPLmineral conversa com o pesquisador do Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT) e colaborador da Rede, o doutor Marsis Cabral Junior, sobre sua atuação junto ao setor de micro e pequenas empresas da mineração

Entrevista: Marsis Cabral Junior
Marsis Cabral Junior

Brasília, 01/10/09

RedeAPLmineral: Conta-nos um pouco de sua trajetória no setor mineral?

Marsis Cabral: Formei-me em Geologia em 1980. Tenho mestrado em Geociências e doutorado em Economia Mineral pela Unicamp. Entrei para o IPT em 1981 e desde então trabalhei em mais de 80 projetos diferentes na área mineral, em parcerias com o setor produtivo, agências de fomento (Finep, Fapesp e Fundos Setoriais) e dando suporte a políticas públicas, por meio do desenvolvimento de projetos de pesquisa e assessorando organismos de Estado e prefeituras municipais. Tais projetos abrangeram estudos nas áreas de Planejamento, Gestão e Economia Mineral; Apoio Tecnológico às Pequenas Empresas de Base Mineral (aprimoramento competitivo e exportação); Prospeção, Pesquisa Mineral e Tecnologia de Recursos Minerais, com maior destaque aosMinerais Industrias envolvendo estudos de qualificação, mercado e aplicação industrial.

RedeAPLmineral: Como você começou a trabalhar com APLs minerais?

Marsis Cabral: Bom, desde a década de 1990 vínhamos trabalhando com os modelos de ‘clusters’ europeus e norte-americanos. O conceito de APL começou a surgir com mais força a partir de 2000, quando diversos estudos e projetos com este enfoque começaram a se estruturar em vários segmentos econômicos. Nesta época, aqui no IPT iniciamos também os estudos para aprimoramento competitivo dos APLs de base mineral do Estado de São Paulo, como o de revestimentos cerâmicos de Santa Gertrudes, os de cerâmica vermelha de Itu, Vargem Grande do Sul, Tambaú, em aglomerações embrionárias como as de Socorro e Bragança Paulista, e de águas minerais na Região Metropolitana de São Paulo.

 

Foram trabalhos que buscaram caracterizar a estrutura produtiva e de mercado desses APLs, bem como os fatores catalisadores das aglomerações, como estágio da governança, nível de cooperação entre as empresas e interação com outros agentes, com a indicação e apoio na execução de políticas e ações para melhorias tecnológicas e consolidação dessas aglomerações.

RedeAPLmineral: Como os ceramistas do estado de SP se beneficiaram desses estudos?

Marsis Cabral: Para o setor mínero-cerâmico, um projeto finalizado recentemente, que ilustra muito bem os reflexos positivos dessas ações em APLs mínero-cerâmicos no Estado, refere-se a um programa prospectivo para matérias-primas argilosas no APL de cerâmica vermelha no Oeste Paulista. Essa região teve nos anos 90 suas áreas tradicionais de extração de argila inundadas pelo preenchimento do reservatório da UHE Sérgio Motta no vale do Rio Paraná. Desde então, o abastecimento do APL é feito por meio de estoques edificados na década de 1990 que, atualmente, já se encontram em vias de exaustão, colocando em risco a manutenção dessa atividade econômica na região.

 

Os trabalhos resultaram na caracterização de reservas de matérias-primas altamente expressivas, certamente uma das maiores já qualificadas no País, que possibilitarão a garantia do suprimento mineral para o desenvolvimento sustentável do APL, que congrega cerca de 100 empresas cerâmicas. Foi dimensionado um total de 135 milhões de toneladas de argila, suficientes para o abastecimento centenário de toda a aglomeração produtiva na região, beneficiando cerca de 100 empresas que produzem blocos e telhas, e que empregam em torno de 1500 pessoas. Além disso, essas jazidas constituem um estímulo à ampliação e diversificação da produção cerâmica na região, bem como à atração de novos investimentos, a partir da implantação de outras unidades industriais.

RedeAPLmineral: Você pode destacar outra ação do IPT com os APLs minerais?

Marsis Cabral: Estamos finalizando o projeto da Central de Massa para as indústrias cerâmicas nos APLs de Tambaú e Vargem Grande do Sul. O projeto é inédito no segmento de cerâmica vermelha e tem patrocínio da Secretaria de Desenvolvimento do Estado. A demanda pelo estudo surgiu porque a melhoria do suprimento de matéria-prima é hoje um dos principais gargalos para que os produtores tenham mais competitividade.

 

A central de massa concebida pelo IPT tem três módulos, cada um deles com capacidade para 450 mil toneladas por ano. Se for viabilizada na configuração maior, a produção de 1,35 milhão de toneladas poderá representar cerca de 30% da demanda regional, que é de 5 milhões de toneladas por ano e atualmente é atendida por dez fornecedores. Uma das vantagens da central será o controle de qualidade das matérias-primas, a ser feito por um laboratório próprio de caracterização de materiais. Os insumos poderão ser ofertados de forma individualizada ou em misturas dosadas (massas cerâmicas), prontas para o consumo. Os investimentos envolvem recursos na faixa de R$ 7,4 milhões a R$ 10,8 milhões, dependendo de quantos módulos de produção forem adotados. Essa margem considera os equipamentos móveis e fixos, obras civis, enfim, toda a gama de instalações e serviços para que a central cumpra seus objetivos.

RedeAPLmineral: A questão tecnológica é a mais sensível para os APLs na sua opinião?

Marsis Cabral: As soluções técnicas podem até ter uma relativa complexidade, mas os principais desafios tecnológicos podem ser superados, considerando-se a capacitação existente no país, em seus centros de pesquisa, universidades e empresas de consultoria. As maiores dificuldades referem-se, na maior parte das vezes, a fragilidade das estruturas de governança locais, a pouca cooperação existente entre as empresas, e as dificuldades de interação com outros agentes que poderiam dar suporte aos APLs, como centros de pesquisa e agentes públicos locais. Os nossos APLs precisam de ações que possam incrementar as interações entre os agentes locais do setor empresarial e público. Acredito que essa seja o maior desafio para o desenvolvimento dos APLs minerais.

RedeAPLmineral: A atuação do IPT é apenas em São Paulo?

Marsis Cabral: Neste momento estamos com uma proposta para o desenvolvimento do setor mínero-cerâmico do Estado do Piauí, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento do Piauí (Idepi) e o Banco do Nordeste (BnB). Finalizamos trabalhos importantes, como o Estado da Bahia, em estudos para a implantação de um pólo mínero-cerâmicos no Estado, em parceria com a CBPM (Companhia Baiana de Pesquisa Mineral).

RedeAPLmineral: Qual a sua opinião sobre a atuação da RedeAPLmineral quanto a sistematização e disseminação de informação?

Marsis Cabral: A preocupação inicial dos agentes que constroem a RedeAPLmineral era de que ela tivesse amplitude nacional e que contemplasse os APLs de todos os segmentos e cadeias produtivas. Apesar de existirem diversos segmentos minerais, alguns aspectos são comuns a todos, como acesso à boa informação sobre: crédito e fomento, qualidade e produtividade, gestão, inovação, etc. Acredito que para a coleta e sistematização de informação para o desenvolvimento dos APLs os grupos de discussão temáticos podem surtir bom efeito. Já, em termos de organização da informação para subsidiar decisões de políticas, talvez a organização dessa informação seja melhor aproveitada se for setorial, ou seja por cadeias e segmentos como políticas industriais.

RedeAPLmineral: A sustentabilidade da RedeAPLmineral é assunto da vez e a discussão estará presente inclusive no VI Seminário Nacional de APLs e também no 3° Encontro da RedeAPLmineral. Como você vê essa questão?

Marsis Cabral: A RedeAPLmineral já criou uma estrutura muito interessante, que agora precisa evoluir e se consolidar. A partir dessa 1ª fase, creio que outras instituições devam assumir papel mais importante como centros de pesquisa e inovação (Cetem, INT, e institutos estaduais como o IPT), além de entidades de suporte empresarial como o Sebrae, Secretarias Estaduais de Desenvolvimento, agências de fomento (como a FINEP) e mesmo instituições financeiras (Banco do Brasil, BNDES). Paulatinamente, espera-se que a rede possa evoluir e se consolidar com a participação mais efetiva do próprio setor produtivo. Isto acontecendo, estaria garantida a sua sustentabilidade.

RedeAPLmineral: Existe algum exemplo no setor mineral desse tipo de cooperação em rede?

Marsis Cabral: Um exemplo pode ser o dá Espanha. A cidade de Castellon concentra um dos maiores APLs de cerâmica do mundo, líder em tecnologias no setor, juntamente com Sassuolo na Itália. A partir de um núcleo de informações criado pelo Instituto de Tecnologia de Cerâmica (ITC), nucleado na Universidade local e com participação do setor empresarial, evolui-se para um ‘observatório tecnológico’, que em seu ponto de partida, tinha um papel parecido com o da RedeAPLmineral. Atualmente, esse ‘observatório tecnológico’ desempenha a função de capitanear a produção de informações não só no quadro das situações atuais, como avalia também cenários futuros, procurando identificar tendências tecnológicas e de mercado. Trata-se de uma parceria público-privada, que também pode produzir estudos mais específicos, de acordo com o interesse de determinadas empresas, sendo custeados diretamente pelos beneficiários. Acredito que possa ser um bom modelo para a RedeAPLmineral.

 

por Claudio Almeida

 

Fonte: RedeAPLmineral

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