Entrevista: Marcos Prates
A RedeAPLmineral conversou com o Diretor de Competitividade Industrial da Secretaria do Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Marcos Bezerra Prates
Brasília, 17/06/2009
Administrador, com especialização em gestão da qualidade, Marcos Prates está no MDIC desde 1993, onde foi levado para coordenar o programa de qualidade e produtividade. Desde 1995 ele ocupa a posição de Diretor de Competitividade Industrial, e é atualmente o Coordenador Geral do Grupo de Trabalho Permanente para Arranjos Produtivos Locais (GTP-APL).
RedeAPLmineral: Você poderia comentar as conceituações de APL e cluster ?
Marcos Prates: O APL se organiza em torno de um produto principal, numa base local comum, que não precisa ser, necessariamente, um município. Existem APLs que funcionam em diversos municípios e até em estados diferentes. Agora, existem graus de maturidade diferentes dos APLs em relação às cadeias presentes na região. Há APLs que têm maior densidade dentro da cadeia produtiva; por exemplo, lidam desde a extração do insumo principal até o acabamento do produto final. Outros são constituídos somente da etapa ou fase de processamento do produto final, por exemplo. O Cluster tem essa idéia de arranjo denso, com diversos elos da cadeia presente. Conceitualmente, há uma abordagem mais flexível que permite considerar aglomerações produtivas com um grau de exigência menor de que um cluster, por exemplo. E também há a questão da inclusão socioeconômico dos participantes de APLs.
RedeAPLmineral: Quais temáticas e áreas de atuação são os focos do trabalho que vem desenvolvendo à frente do Departamento de Competitividade Industrial (DECOI) na Secretaria do Desenvolvimento da Produção (SDP) do MDIC?
Marcos Prates: Nessa área trabalhamos muito com assuntos de capacitação empresarial, capacitação para a qualidade. Analisando o trabalho realizado podemos dizer que ele tem uma base similar ao trabalho realizado com os APLs, até um pouco mais diverso. Por exemplo, nós temos trabalhado com os fóruns de competitividade onde temas como as atividades realizadas com APLs dos setores de madeira e móveis, construção civil, que tem até uma interface com a RedeAPLmineral já que vários produtos utilizados na Construção civil são de base mineral e portanto do interesse da Rede, são discutidas. Nesses fóruns, assuntos como as maneiras de trazer os produtores para a formalização, questões ambientais, etc., são aprofundadas.
RedeAPLmineral: Essas questões são muito sensíveis aos produtores. Como encarar essa situação?
Marcos Prates: Tem que se ter muito cuidado nesse trabalho, por que o processo de formalização, se mal conduzido, pode excluir muitas pessoas em vez de incluí-las. Temos sempre a preocupação de focar nosso esforço para a melhoria continua. E por isso mesmo sempre ter o cuidado de não demandar exigências que não podem ser alcançadas pelo setor empresarial. Temos que ter cuidado com esse processo. Também não podemos exigir enormes mudanças em curtos espaços de tempo. Principalmente é preciso que haja programas de fomento disponíveis e ações estruturadas para essas intervenções, por que, assim, se permite um acesso mais rápido às empresas para que elas possam se ajustar com maior velocidade.
RedeAPLmineral: Como o GTP-APL está atuando junto aos APLs do País?
Marcos Prates: De uma forma geral há uma repetição dos problemas nos APLs do mesmo segmento/cadeia que estão distribuídos em diversas partes do País. Aqui na coordenação do GTP-APL nós adotamos a metodologia de Planos de Desenvolvimento dos APLs, sistematizando as questões que são relevantes para o APL específico. Mas sentimos que só essa visão focada no território e nos gargalos locais precisa ser complementada por uma visão/ação sistêmica e estruturante. Assim poderemos discutir os problemas comuns aos APLs do mesmo segmento/cadeia e que se repetem em diversos locais do país, para que possamos, conjuntamente, achar as soluções. Por que muitas vezes existem problemas comuns àquelas atividades que estão fora do escopo da governança dos APLs locais, mas que precisam ser resolvidas. A intenção é para que essas informações possam servir de subsídios aos agentes públicos federais, estaduais, municipais. Com essas informações os agentes poderão agir e criar políticas públicas que fomentam e geram o desenvolvimento nas regiões. Então são essas questões que precisam ser discutidas pelos agentes que proponham políticas públicas, nacionais, incluindo aí os diversos atores que tem interface com o setor.
RedeAPLmineral: Você pode exemplificar essa atuação?
Marcos Prates: No Nordeste há vários, por exemplo, na Ovinocaprinocultura. Em todos os APLs do segmento há problemas de melhoria genética, abate clandestino, controle sanitário, alimentação adequada, etc. Se concentrar os esforços na resolução desses macros-problemas, que ocorre na maioria dos Arranjos, isso permite que você pense o problema globalmente. Inclusive, é necessário pensar, antecipadamente, no direcionamento correto de mercado, aproveitando, talvez, a atuação das empresas maiores que estão nos setores para promovê-los como âncoras do progresso técnico de cada setor. Isso acontece de forma clara na suinocultura, avicultura etc.; onde se tem a capacitação tecnológica, crédito, etc. realizada pelas grandes do setor, levando em consideração os micro e pequenos fornecedores. Essa organização facilita uma série de questões para a cadeia inteira e que pode inspirar outros segmentos.
RedeAPLmineral: As micro e pequenas empresas (MPEs) organizados em APL podem sonhar com os mercados internacionais?
Marcos Prates: Para exportar é necessário ter escala, primeiramente. Acredito que as micro e pequenas devem contar com a experiência das grandes empresas do setor que já atuam no mercado internacional para que possam compreender melhor as dificuldades de operação neste mercado. Se elas já exportam, é por que já tem contato com os produtores, os transportadoras, a cadeia internacional de distribuição, etc.. As grandes já fazem a conexão entre a base produtiva e a rede de distribuição mundial. Para uma pequena empresa entrar nessas redes, leva tempo. Contatos, experiência, tudo é mais difícil. O que pode acontecer é que se uma já abriu esse espaço no mercado mundial, ela pode ajudar outras a se inserirem, compartilhando informações sobre: como ganhar confiança, como abrir novos espaços, qual o investimento necessário, qual a capacidade de capital de giro, em suma todo o domínio do ciclo de negocio.
RedeAPLmineral: A intensificação e fortalecimento dos laços de cooperação entre seus integrantes como parte essencial da metodologia de desenvolvimento do APL pode virar fator determinante na promoção da exportação para os micro e pequenos produtores?
Marcos Prates: Existem experiências de se fazer consórcios de exportação. Agora o processo de compartilhar processos de exportação não é fácil. Não acontece numa primeira sentada, é preciso articular bem esse processo de confiança entre as empresas. Normalmente elas começam compartilhando serviços de apoio à exportação. Então é um longo caminho para se pensar nesse compartilhamento. O exemplo do que aconteceu na Itália , por exemplo, foi que houve foi um benefício fiscal para as empresas de menor porte. Quando a empresa chegava no limite de perder o benefício, o empresário abria nova empresa para ficar dentro do benefício. Mas só que com isso ele compartilhava a produção. Esse processo de compartilhar informação e ações é muito complexo. Qual a divisão entre compartilhar e competir? É fácil de falar, mas difícil de realizar o que todos desejam, ou seja, que todos possam cooperar entre si sem perder a competitividade geral do negócio.
RedeAPLmineral: Como se pode estimar a contribuição e importância dos APLs para economia brasileira e qual sua abrangência geográfica e setorial?
Marcos Prates: o MDIC tem catalogadas 957 APLS no País inteiro. Eles abrangem áreas que vão do turismo à cerâmica, de metal-mecânica a têxtil e confecções, móveis, área espacial, couro e calçados, tecnologia da informação; praticamente todos os segmentos industriais e de serviços do país têm produção em APLs. Os APLs penetram todo o tecido econômico nacional brasileiro. Só nos 257 APLs priorizados pelo GTP-APL existem aproximadamente 295 mil empreendimentos e 2 milhões e 800 mil empregos formais. Com isso você pode imaginar a importância desses APLs nas economias locais de onde vêm e, juntando todos, para o desenvolvimento do País.
RedeAPLmineral: O GTP-APL está organizando a 4ª Conferência Brasileira de APLs, em Brasília, nos dias de 26 a 28 de outubro de 2009. O que tem de novidade nesta edição?
Marcos Prates: Na 4ª Conferência a idéia é de trazer algumas experiências internacionais para contribuir com o debate com a experiência brasileira. Vamos fazer espécies de encontros setoriais, por exemplo, com APLs de Base mineral, do setor de Moda, Indústrias Criativas, bioenergia, biotecnologia, cultura e entretenimento, produtos da sócio biodiversidade, turismo, metal-mecânico, bens de capital, base vegetal, tecnologia da informação e comunicação. Esses setores terão encontros onde todos os agentes envolvidos poderão discutir as necessidades, demandas, facilidades que eles encontram no setor. É uma oportunidade dos agentes desses setores se encontrarem, já que muitas vezes eles estão muito longe um do outro. Mais, como trabalham com produtos em comum, podem trocar experiências e conhecimentos.
RedeAPLmineral: É um sinal de que o GTP-APL vai enveredar pela organização em núcleos setoriais?
Marcos Prates: Eu não diria tanto. Talvez não seja o momento de se criar núcleos, mas talvez agendas nacionais propositivas e fundamentadas para propor soluções pragmáticas. Em alguns casos os setores têm fóruns de competitividade que desempenham esse papel como os de metal-mecânico, madeira e móveis, bens de capital, automotivo. Está sendo discutida, no âmbito do GTP-APL, a criação de subgrupos, inclusive de base mineral, justamente para tratar desses assuntos estruturantes. No caso do Subgrupo Mineral, poderia se discutir assuntos como: difusão de tecnologias, matrizes energéticas, reciclagem, resíduos e recuperação de áreas degradadas, por exemplo.
RedeAPLmineral: Então faça um convite para a 4ª Conferência Brasileira de APLs?
Marcos Prates: A 4ª conferência será realizada em Brasília, nos dias 26 a 28 de outubro de 2009, no Centro de Eventos e Treinamento da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comércio. É um evento técnico, então todos que tem interesse ou que atuam na área estão convidados a participar. Acreditamos que é uma oportunidade bastante especial para a troca de experiências e para o que está acontecendo de melhor no mundo a respeito do tema.
Fonte: RedeAPLmineral