Entrevista: Luiz Carlos Tanno
Formado em Geologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1975) e mestre em Geociências (Geoquímica e Geotectônica) pela Universidade de São Paulo (1995)
RedeAPLmineral: Como começou a sua carreira junto ao IPT?
L.C. Tanno: Sou pesquisador do IPT - Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo desde 1980. Ocupei neste período a chefia da Seção de Matérias-Primas Minerais (1992 a 1995) e a chefia do Agrupamento de Recursos Minerais (2004 a 2006) da Divisão de Geologia. Participei na execução e coordenação de mais de 60 projetos com órgãos de governo, empresas públicas, setor produtivo e agências de fomento. Tenho experiência nas áreas de Prospecção, Pesquisa, Planejamento e Economia Mineral, com ênfase em Minerais Industriais (argilas para cerâmica, bentonitas, agregados, entre outros). Coordeno desde 2002 o Patem - Programa de Apoio Tecnológico aos Municípios, programa este vinculado à Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo e executado pelo IPT, que já atendeu mais de 250 municípios paulistas.
RedeAPLmineral: Você podia contar mais sobre as atividades do IPT com a Cerâmica?
L.C. Tanno: O IPT tem longa tradição de atuação na área de cerâmica. As primeiras atividades datam da década de 30, quando as empresas do ramo começaram a se estruturar. Nesta época, como único laboratório brasileiro de apoio à indústria cerâmica, o IPT atuou intensamente na caracterização de matérias-primas de diferentes regiões do País.
Porém, foi só nos anos 60, quando da implantação dos programas habitacionais para o atendimento crescente por moradias no País, que o IPT teve participação mais ativa e direta, atuando em todos os segmentos cerâmicos. Os investimentos do governo federal, aliado ao crescimento industrial, resultaram em um “boom” na construção civil, que teve o seu auge na década de 70. Foi também neste período que teve início a reestruturação do setor cerâmico, uma vez que a demanda aquecida por materiais cerâmicos, de certa forma, forçou os empresários com visões menos imediatistas a investir em novos equipamentos e ampliar as suas unidades fabris. Na esteira dessas modernizações e ampliações, vieram também iniciativas de diversificação no processo produtivo e linhas de produtos e, por extensão, das matérias-primas utilizadas.
No entanto, por outro lado, como decorrência das transformações no perfil dos empreendimentos de alguns segmentos cerâmico, uma série de problemas tecnológicos começou a surgir. E foi neste contexto que o IPT se inseriu no “mundo cerâmico,” via solicitações das indústrias para resolver problemas relacionados a matérias-primas, processos e produtos. Ao longo dos anos, as demandas contínuas e crescentes por serviços técnicos e ensaios passaram também a nortear o desenvolvimento da capacitação técnica e laboratorial do Instituto, principalmente no que se refere aos ensaios e testes de caracterização de matérias-primas e produtos manufaturados.
Nos últimos anos, segmentos mais tradicionais como os de cerâmicas vermelha e de revestimento continuaram seu crescimento introduzindo tecnologias desenvolvidas pelos fabricantes nacionais de equipamentos e incorporando conhecimentos técnicos oriundos de institutos de pesquisas e universidades. Por outro lado, as iniciativas de investimentos em cerâmica avançada que tiveram o seu auge na década de 80 foram arrefecidas e, atualmente, nota-se que as instituições de pesquisa tendem a voltar a atenção para os problemas dos subsetores cerâmicos mais tradicionais.
O IPT, a partir da década de 80, desenvolveu diversos projetos interdisciplinares em cerâmica envolvendo profissionais de diferentes unidades técnicas do Instituto, como as áreas de geologia, engenharia de minas, engenharia de materiais e economia, entre outras.
No tocante à cerâmica vermelha, foram realizados dezenas de trabalhos técnicos enfocando toda a cadeia produtiva, com destaque para a questão do suprimento de matérias-primas para o segmento.
RedeAPLmineral: Os APLs de cerâmica vermelha de SP optaram pelo uso do Central de Massas. O senhor poderia explicar como funciona o conceito?
L.C. Tanno: Conceitualmente, a central de massa corresponde a um upgrade tecnológico na atual estrutura de produção de matérias-primas. Enquanto as mineradoras ofertam simplesmente diferentes tipos de argilas, a central poderá funcionar como uma unidade de processamento mineral a ser implantada entre a mineração de argila (fornecedores de matéria-prima in natura) e as indústrias cerâmicas consumidoras, avançando nas etapas de preparação de misturas balanceadas para os diferentes processos e produtos cerâmicos.
Entre os benefícios, estão a melhoria e maior controle da qualidade das matérias-primas e a simplificação e especialização das plantas industriais das cerâmicas, visto que algumas das etapas de preparação de massa, que tradicionalmente são feitas dentro das próprias cerâmicas, passariam a ser assumidas pelas centrais.
A central deverá compreender um conjunto de operações relativamente mais simples envolvendo estocagem, sazonamento, cominuição, homogeneização, mistura de diferentes tipos de argilas (composição de massas) e formação de lotes de matérias-primas. Os produtos a serem comercializados abrangerão argilas beneficiadas (cominuídas e homogeneizadas) e misturas dosadas prontas para o consumo, com a composição específica para cada tipo de produto (telhas, blocos, tubos etc.), ambas acondicionadas em lotes com propriedades controladas.
O modelo conceitual de fornecimento de matérias-primas, por meio de um elo especializado no beneficiamento mineral e na composição de massas, é baseado em estrutura produtiva similar já estabelecida em países europeus (Itália, Espanha e Portugal). No entanto, as congêneres européias constituem unidades industriais que formulam massas compostas (misturas de diferentes matérias-primas plásticas e não-plásticas) por processo via úmida, destinadas principalmente às indústrias de revestimento e sanitários.
RedeAPLmineral: A Central de massas é uma tendência que possa ser copiada por APLs de Cerâmica de outras regiões produtoras?
L.C. Tanno: Acreditamos que este modelo de central poderá ser adotado em outros APLs de Cerâmica para o abastecimento das unidades de cerâmica vermelha. Contudo, deve-se levar em conta o tipo de matéria-prima processada e a massa consumida (massa simples – constituída apenas por diferentes tipos de argilas mais ou menos plásticas).
RedeAPLmineral: A gestão dos resíduos é outra questão muito cara aos produtores. Como está sendo feita a gestão dos resíduos da cerâmica vermelha?
L.C. Tanno: Existe hoje uma preocupação muito grande em relação aos resíduos da cerâmica. Além das perdas no processo produtivo, há a questão ambiental. Algumas cerâmicas já utilizam o resíduo moído (chamota) para compor parte da massa.
RedeAPLmineral: Um dos principais objetivos da Rede APL mineral é a organização e disseminação de informação para os produtores. Como fazer um benchmark dos melhores casos de queima no setor de cerâmica vermelha? Existe 'espaço' para disseminar as boas práticas?
L.C. Tanno: Disseminar as boas práticas é muito importante, ainda mais em um país com a dimensão do Brasil, onde existem problemas e realidades distintos. A Rede APL pode ter um papel relevante na organização e disseminação de informação no segmento de cerâmica vermelha, mesmo nos aglomerados ainda não-organizados. No tocante ao suprimento mineral algumas questões podem ser destacadas como: a carência de depósitos de argila, tecnologia deficiente de pesquisa, lavra e beneficiamento, o que se reflete na qualidade das matérias-primas, e as dificuldades dos mineradores no atendimento das exigências legais para regularização dos empreendimentos, entre outros.
RedeAPLmineral: O senhor pode comentar cases de como o setor está melhorando a qualidade dos produtos e reduzindo os "gaps" internos?
L.C. Tanno: O setor empresarial vem tomando iniciativas nos últimos anos para aprimoramento tecnológico e competitivo, como a adesão em programas de qualidade, implantação de laboratórios de caracterização tecnológica de matérias-primas e produtos (Itu e Tatuí), qualificação de mão-de-obra, desenvolvimento do uso de novos combustíveis, estudos de incorporação de resíduos na massa cerâmica e diversificação da produção. Este esforço de modernização do setor tem sido liderado pela Anicer - Associação Nacional da Indústria Cerâmica, articulada com associações e sindicatos regionais, e conta com a participação ativa de órgãos como o Sebrae – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo e outros centros de pesquisa e inovação.
RedeAPLmineral: Qual a influência do custo de transporte para os centros consumidores?
L.C. Tanno: A indústria de cerâmica vermelha no Brasil caracteriza-se como um segmento econômico expressivo e de grande pulverização territorial. Raramente depara-se com um município ou uma região que não tenha uma cerâmica ou um núcleo de pequenas olarias. Atreladas às cerâmicas, esse segmento industrial é abastecido por um grande número de unidades produtivas de argilas comuns. Isto se deve ao fato de que essas substâncias minerais possuem baixo valor unitário, baixa densidade tecnológica e envolvem grandes volumes de produção. Portanto, tais matérias-primas não comportam transporte a grandes distâncias, condicionando a instalação das cerâmicas o mais próximo possível das jazidas.
RedeAPLmineral: Obrigado pelas informações e a disposição de colaborar conosco. Convidamo-no a assistir ao VII Seminário Nacional de APLs de base mineral e também o 4° Encontro da RedeAPLmineral que acontecem simultaneamente de 30 de agosto a 2 de setembro em Goiânia.
L.C. Tanno: Obrigado.
Fonte: RedeAPLmineral